Olá!
Normalmente quem tem a sua própria empresa, refere que seria bastante mais fácil trabalhar por conta de outrem e quem trabalha por conta de outrém está farto de aturar o chefe, alimentando diariamente o sonho de ter um negócio próprio.
Embora te faça lembrar a música do António Variações ("Estou bem onde não estou porque eu só quero ir onde não vou"), é um problema que só entende quem passa pela situação.
Hoje não te vou escrever teorias sobre a vida, mas sim o que aconteceu comigo nestes últimos anos.
Quando terminei a licenciatura, tive a oportunidade de iniciar um estágio numa das maiores empresas nacionais. O choque foi imenso.
Ficava sentado 85% do dia e quando olhava à minha volta parecia que estava num lar de dia, pois aquelas pessoas estavam fazer coisas com tão pouco interesse e com tão pouco impacto na vida delas.
Com 8 dias de empresa, estava cheio e saturado daquilo e pensava "Ei pá... onde me vim meter.".
"Como é que estás pessoas aguentam isto??" - perguntava eu. Estas pessoas estavam fechadas dentro de si próprias, guerreando umas com as outras, suportando um supervisor que não tinha familia nem vida fora da empresa. A empresa era a vida dele... e para a maior parte daqueles pessoas a empresa e a inutilidade que faziam, era a vida delas... Isto assustava-me profundamente e sinceramente rejeitava a ideia de entrar naquele comboio para "Lado Nenhum".
Alguns anos anos mais tarde...
Estava eu na minha secretária a ver o mundo passar quando me pensei: "Estou farto disto. A minha vida não tem significado, vou abrir um negócio meu.".
Comecei por pesquisar áreas de negócio rentáveis e quando encontrei a área, iniciei a esquematização do negócio:
- Número de funcionários
- Material a comprar
- Volume estimado de negócio mensal
- Financiamento necessário
- Desenho da imagem da empresa e esquematizar o plano de marketing
- Fazer o site da empresa
- Procurar imóvel
- Desenhar o aspecto final das instalações
- Pesquisar as licenças necessárias para o negócio funcionar 100%
Esta fase demorou 6 meses e foi totalmente feita à noite, pois continuava a trabalhar.
Em inícios deste ano começaram as obras no imóvel. Gerir a obra foi fasntástico... passar do desenho para a realidade foi excelente.
A fase de construção foi realmente enriquecedora e memorável.
Quando o imóvel estava já praticamente pronto, recrutamos as pessoas que pensamos ser as certas e perto do Verão arrancamos o negócio.
Como não ia estar lá presencialmente, nomeei um funcionário como Manager do espaço.
O negócio começou muito bem, com muitos clientes, mas à medida que o tempo ia passando, a qualidade do serviço foi diminuindo... Porquê? Os contratos tinham 1 mês de experiência, em que a qualquer momento poderia despedir o funcionário. Durante esse período foi tudo fantástico. Quando esse período acabou, foi um pesadelo diário... Os funcionários apanharam-se com vínculo e começou a dor de cabeça:
Conflitos diários ocorriam na equipa e pouco podia fazer, pois não estava lá para o resolver na hora... apenas ia lá ao final do dia e o Manager revelou-se fraco. Fazia reuniões diárias ao final da tarde onde incentivava a equipa e tentava estabelecer regras... mas foi muito complicado pilotar à distância:
- Negavam-se a trabalhar para além dos horários de trabalho
- Quando trabalhavam mais 5 minutos, apontavam, numa agenda para depois apresentarem
- Um funcionário simulou variadas vezes doença, para faltar ao trabalho e para sair mais cedo
Quanto às simulações, nada podia fazer, pois tinha sempre o comprovativo do médico do Posto Médico.
- Conflitos e mais conflitos
- Falta de cortesia com os clientes
- Um dos funcionários estava sempre a queixar-se, havia sempre algo para se queixar
O sonho, rapidamente virou pesadelo... começava a ficar arrependido por ter investido o meu dinheiro precioso...
Deves estar a pensar: "Gil, despedias o funcionário". As leis laborais em Portugal protegem imenso um colaborador e para o despedirmos temos de o indeminizar ou senão ter uma razão fortíssima para o mandar para a rua com justa causa.
Onde chegou o negócio? Claro... a lado nenhum... farto de aturar funcionários, contabilistas, impostos pesados do estado e tudo o mais, decidi terminar com aquilo alguns meses depois.
Mandei os funcionários para a rua e por incrível que pareça ficaram felizes, pois iam para casa com o subsídio de desemprego…
Só para teres ideia... sabes quanto uma empresa paga por ti?
Imagina que ganhas 500€. A empresa paga por ti 710€. Sabes porquê? Existe um imposto sobre o ordenado de um funcionário que é de aprox. 27%, sabias? Pois... a empresa paga à parte... só comecei a dar valor quando o comecei a pagar...
Hoje respeito imenso quem tem uma empresa e entendo as dificuldades a elas inerentes. Não é fácil manter um negócio e ter pessoas à nossa conta é das piores coisas que há, de certeza não me meto noutra. Hei-de ter outros negócios, mas não empregarei mais ninguém!
Bem o negócio já fechou e agora tenho de pagar o que lá investi... pelo menos arrisquei... vivi e aprendi muito, pena que não resultou... Tenho hoje um respeito enorme pelas pessoas que conseguem manter o seu próprio negócio, pois não é nada fácil.
O que te aconselho... abre o teu negócio, fica tu a geri-lo e não tenhas empregados!
Gil